VAIDADE: A CARNE FRACA DE UMA OPERAÇÃO
VAIDADE: A CARNE FRACA DE UMA OPERAÇÃO

Inevitalmente, o assunto da vez é a Operação Carne Fraca, que após dois anos investigando frigoríficos em todo o país, identificou problemas e irregularidades em 21 plantas frigoríficas do país, menos de 0,4% de um total de mais de 4800 fábricas no Brasil todo. As conclusões da Polícia Federal e Ministério Público apontam irregularidades e propinas pagas a fiscais, especialmente pela JBS, titular das marcas Friboi e Seara, num esquema que – segundo eles – repassava valores a políticos do PMDB e PP, alojados nas superintendências estaduais do Ministério da Agricultura. 

Quase ninguém reparou que a expressão “Carne Fraca”, usada para batizar a operação, não é de uso corrente nem no agronegócio nem na indústria de carnes. É originária da Bíblia, do relato em que Jesus foi orar no Getsêmani, horas antes de enfrentar o Calvário, e depois de uma hora volta ao local em que os apóstolos o aguardavam, e os encontra dormindo. É quando ele diz: “o espírito deles, na verdade, está pronto, mas a carne é fraca”. Desde então, “carne fraca” é sinônimo da tendência natural do ser humano a falhas de caráter, que na religião chamamos de Pecado. Pois um dos Sete Pecados Capitais é justamente a vaidade. E não há outra explicação racional pra que agentes da PF e Ministério Público corressem de forma tão acelerada aos microfones e holofotes para divulgar esta investigação de forma tão apressada, atabalhoada, passando a impressão errônea de que TODA a pecuária brasileira está contaminada por más práticas. Uma divulgação honesta, que respeitasse os fatos e a verdade, deveria passar ao povo brasileiro alguns dados importantes. Fiz aqui uma pequena lista: 
1) - Cabeça de porco não é proibido no processo de embutidos. NUNCA FOI. Aqui na minha região, se come cabeça de ovelha. É um prato rústico, típico, e...delicioso!
2) - A gravação sobre papelão na carne fala apenas de trocar embalagens de plástico por embalagens de papelão. Ora bolas, você recebe pizza no papelão e come do mesmo jeito.
3) - Carne Podre, NÃO É carne podre de verdade. É uma expressão, uma gíria, que se usa em fiscalização, quando se fala de carne que não recebeu o Selo de Inspeção Federal. É como quando os banqueiros e economistas falam em "Moeda Podre", por exemplo. Os IMBECIS que divulgaram a investigação deveriam esclarecer isso.
4) - São 21 frigoríficos com problemas detectados. São mais de 4 mil em todo o Brasil. É menos de 0,4% do total. Mas agora, graças à PF e à Globo, TODO MUNDO virou bandido de uma hora pra outra.
5) – Ácido ascórbico e Ácido Sórbico, são permitidos pela legislação e não são cancerígenos coisa nenhuma. São conservantes que permitem que a carne (boa) atravesse longas distâncias em contêineres e permaneça com o seu sabor autêntico.
6) – É preciso uma grande dose de ingenuidade ou de ignorância empresarial para acreditar que um frigorífico sujaria sua imagem repassando carne verdadeiramente podre para mercados exigentes como os da Europa e Estados Unidos, pois se ganha muito mais dinheiro observando as regras dos mercados pagadores. Há bem pouco tempo, na região, a queixa dos pecuaristas era justamente a quantidade de carcaças condenadas pelo frigorífico local, que não é JBS. O produtor vende um lote de, digamos, 40 rezes, e um fiscal de abate chegava a condenar, por exemplo, 10 carcaças. O produtor receberia, nesse caso hipotético, pelas 30 restantes apenas. Ou seja, pra indústria, é mais negócio ser criteriosa. 
O debate no Brasil,infelizmente, está imbecilizado. Se você é contra a PF fazer alarde de mídia numa investigação como essa, logo vem alguém dizer que você é a favor dos empresários corruptos e gananciosos. NÃO E NÃO! Como produtor, como ex-diretor de frigorífico, mas sobretudo como brasileiro, eu sou a favor de que a PF não se torne uma polícia totalitária que prejudique negócios honestos em todo o Brasil! Apenas isso. Nada, absolutamente nada, impedia a Polícia Federal e o Ministério Público de atuar com a discrição que a função exige, desbaratando as quadrilhas dos frigoríficos e prendendo os culpados. Mas depois de ficarem viciadas em "vazamentos" e anos a fio de exibicionismo midiático, finalmente sua sede por holofotes causou mais do que prejuízo a alguns empreiteiros corruptos e uns poucos milhares de desempregados: a generalização grosseira sugeriu que toda a carne brasileira é vendida estragada, e agora os mercados mais rentáveis do mundo ameaçam fechar as portas à pecuária nacional. 
Frigoríficos que se preparavam para expandir investimentos após finalmente exportar carne “in natura” para os Estados Unidos depois de muitas décadas, agora se ajustam a uma maré de incertezas. Pecuaristas idôneos e indústrias frigoríficas sérias, grandes ou pequenas, foram colhidas de roldão pela idéia de que a carne do Brasil está “fraca” ou “podre”. O quanto isso pode acarretar de desemprego e prejuízo no país que, até ontem, era o maior fornecedor de proteína animal do mundo?
Parabéns aos envolvidos. Senhores pecuaristas, senhores industriais, prezados industriários que perderão seus empregos...não esqueçam de mandar a conta para a Federal.

 

Tarso Teixeira
Presidente do Sindicato Rural de São Gabriel e Vice Presidente da Farsul
 
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