A Quaresma Pagã da CNBB
Como acontece todos os anos, uma vez mais a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, colegiado dos líderes da Igreja Católica Apostólica Romana no país, prepara mais uma Campanha da Fraternidade para marcar o tempo da Quaresma – os 40 dias de contrição e reflexão que antecedem a Paixão de Cristo e a Páscoa de sua ressurreição. E como tem se tornado tristemente freqüente, uma vez mais a liderança episcopal do maior rebanho católico do mundo opta por abrir mão da espiritualidade e usar a ocasião para propor um discurso de natureza política, com fortes tonalidades ideológicas.  Se em 2016 o tema era “Cuidar da Terra, Casa Comum”, neste ano se falará de “Biomas Brasileiros e Defesa da Vida”. 
 
A leitura do texto-base da CF2017 é tarefa das mais sofríveis. De saída, a canção-tema saúda a “Mãe Terra”, algo estranho para quem ainda achava que a mãe dos católicos era Maria Santíssima, e não o mito pagão da “Pachamama”, de uma terra que, para o ensino católico autêntico, não é mãe, mas criação que precisa ser domesticada constantemente para o progresso humano. Não no entendimento do documento desta quaresma, que elege o agronegócio (sempre ele) como o principal vilão da preservação dos seis biomas brasileiros: Amazônia, Caatinga, Pantanal, Cerrado, Mata Atlântica e Pampa, além de chancelar o discurso do aquecimento global – já devidamente censurado até mesmo pela Pontifícia Academia de Ciências de Roma. Ou seja, em nome da sua ideologia regressista, afronta-se o próprio Magistério da Igreja. 
 
O Brasil que emerge das páginas do texto-base da Campanha é uma tragédia verde: os pampas “engolidos” pela monocultura do arroz, soja e floresta (ora, mas se são três itens, não pode ser “mono”, certo?), e a Amazônia devastada pela pecuária, dentre outros mitos do senso comum.  Apenas 16% da Amazônia Legal é ocupada por propriedades rurais. Na Caatinga, a área preservada é de 63,3%. 51,5% no Cerrado, 86,7% no Pantanal, 27% na Mata Atlântica e 41,3% no bioma Pampa. Ao todo, o Brasil utiliza 418 milhões de hectares para a produção rural, contra 447 milhões da Austrália e mais de 900 milhoes de hectares nos Estados Unidos, por exemplo. Além disso, o documento ignora completamente os avanços ambientais pesquisados e produzidos pelos próprios produtores rurais no país.
 
Embora afirme aos quatro ventos um compromisso preferencial pelos pobres,  é justamente contra eles que a CNBB se levanta a cada novo ataque ao agronegócio. Porque é este setor que ainda cresce em meio a uma economia cambaleante, e que permite a geração de empregos em escala crescente, mas também transformou o país em um dos campeões mundiais de produção de alimentos...e isso, fazendo uso de apenas 8% do território nacional.
 
Que nesta quaresma, Deus tenha piedade dos bispos da CNBB.
Tarso Teixeira
Presidente do Sindicato Rural de São Gabriel e Vice Presidente da Farsul
 
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